Sou preta, e estou cansada de ter que lutar sempre pelos meus direitos

* O texto abaixo foi escrito por uma colunista que prefere não ser identificada

Foto: Unsplash

Cheguei com essa fala em uma sessão de terapia há uns quatro meses e acho que peguei a minha psicóloga de surpresa. Eu mesma já tinha me surpreendido e chorado escondida ao pensar sobre o assunto.

“Por que eu preciso dar murro em ponta de faca?”, “Por que eu tenho que lutar pelo meu espaço em certos lugares na sociedade enquanto corpos brancos só precisam existir?”, “Por que eu não posso ser apenas eu mesma, sem ter que ficar batendo no peito e gritando ‘Eu sou preta’ antes de qualquer coisa?”.

Olhando agora, essas frases me soam absurdamente ridículas, mas naquele momento de estafa, era só o que me fazia sentido. Eu não queria mais militar o tempo todo, ter que me impor e lutar por direitos que, obviamente, não eram meus. Eu achava que a luta e o sofrimento interno pelo qual eu passava não chegava às pessoas que deveriam chegar, então “pra que tanto esforço?”

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Hoje eu entendo todos os porquês. Hoje, só quatro meses depois dessa crise de esgotamento e dúvidas, as mortes de corpos pretos me fizeram lembrar da importância de ser militante, de gritar, com orgulho, sempre que possível “EU SOU PRETA” e de me posicionar numa sociedade que não está acostumada a dar espaço para pessoas como eu.

E como é difícil não desistir. Tem hora que a gente acha que nada, nunca vai mudar, que ninguém está nos escutando e que, talvez, seja mais fácil voltar a ser domada e invisível em todos os lugares, porque me impor o tempo todo dá muito trabalho. Mas é assim que é.

Eu queria mesmo que não fosse preciso que os cidadãos do país mais poderoso do mundo parassem a nação pra exigir justiça pela morte de mais um homem preto assassinado pela polícia. Queria que, no Brasil, as crianças pudessem chegar a crescer e não morressem “de tiro” em mais um desses casos corriqueiros de bala perdida. Queria poder ocupar um posto na empresa onde trabalho e ser vista como uma líder, uma diretora, uma presidente.

Mas essas coisas não estão acontecendo e nem parece que estão próximas a acontecer.

Então, enquanto isso, mesmo que seja cansativo, é preciso erguer a cabeça, bater no peito e dizer que “eu estou aqui pra ocupar o espaço que você me tomou”. E é preciso fazer isso quantas vezes for necessário. Mesmo que a mão doa, que a cabeça pese e que as lágrimas caiam.

Até quando eu não aguentar mais e pensar em desistir, seguirei militando e brigando, pra que as próximas gerações não tenham que continuar se cansando pelos mesmos motivos.

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