Por que a diferença salarial entre homens e mulheres é tão grande?

No último trimestre de 2019, homens ganharam, em média, R$ 2.495. Enquanto isso, mulheres receberam R$ 1.958, rendimento 22% menor, segundo o Dieese. Isso significa que, apesar de as discussões sobre igualdade salarial terem ganhado força nos últimos anos, ainda há muito o que fazer: a diferença gritante continua existindo.

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Mas afinal, existe algum motivo histórico pelo qual essa diferença continha acontecendo? Em pleno 2020, será que não alcançaremos a igualdade salarial? Se as coisas continuarem avançando na velocidade em que estão, o pagamento justo entre os gêneros só será alcançado em 217 anos, segundo o relatório Global Gender Gap Report 2017.

A origem do problema

Precisamos retornar ao passado para entender o porquê desse problema existir. O fato de mulheres atuarem no mercado de trabalho é algo recente na nossa história. Acredita-se que elas começaram a trabalhar somente por volta do fim do século XIX. A presença feminina nos empregos aumentou no ocidente após o período entre as guerras por conta da falta de mão-de-obra masculina.

“Tendo isso em mente é possível entender a diferença de salário naquela época, as mulheres não eram qualificadas, mal tinham instrução e estavam ali ‘quebrando um galho’ até os seus maridos voltarem da guerra”, conta Sarah Novaes, especialista em gênero. “As mulheres não eram preparadas para o mercado de trabalho e por isso nenhum empregador as viam como merecedoras do mesmo salário. Até aí tudo bem – não tudo bem, mas entendemos.”

Mesmo com todas as ressalvas e condições precárias que foram inseridas, foi apenas dessa maneira que as mulheres conseguiram o acesso à educação formal e a figura feminina começou a ganhar sua emancipação.

A partir de então, começaram a surgir posições voltadas exclusivamente para a mão de obra feminina, como telefonista, secretária, costureira, passadeira, cuidadora… “Ter a mulher no mercado de trabalho não era algo tão estranho se fosse em trabalhos adequados a elas. E assim começa uma ascensão e um sentimento de pertencimento. O grande porém aqui é: mulheres precisavam da autorização de um homem responsável para que elas pudessem receber seu dinheiro. Elas não podiam ter contas em banco sem um homem, e mesmo com um homem não podiam movimentar a conta sem uma permissão por escrito”, detalha Sarah.

Outro ponto a ser levado em conta é que mulheres que trabalhavam nessa época não eram muito bem vistas. Na classe média, por exemplo, elas eram proibidas de exercer qualquer profissão, já que isso era considerado algo “não apropriado à mulheres de boa família”.

No Brasil

Após a revolução industrial, a partir da segunda metade do século XVIII, as mulheres começaram a ganhar força no mercado de trabalho brasileiro. Na medida que as indústrias se fortaleciam, a mão de obra era cada vez mais procurada. Porém, desde essa época, os cargos e o salário das trabalhadoras já era inferior.

Só em 1887 uma mulher veio a se formar no ensino superior no Brasil. Rita Lobato Velho Lopes se tornou médica pela Faculdade de Medicina da Bahia. Tal feito foi uma mudança de paradigma tão grande que as universidades tiveram que repensar suas estruturas, já que nem banheiro feminino existia nelas.

Em 1950, dados do IBGE mostram que apenas 13,6% das mulheres eram economicamente ativas, conta 80% dos homens. Sessenta anos depois, em 2010, a participação feminina saltou para 49,9%.

A questão da maternidade

Segundo especialistas, a desigualdade entre homens e mulheres pode acontecer por questões sociais e culturais, mas principalmente pelo fato de muitos empregadores encararem a maternidade como um “limitador”.

“Muitas mulheres, após o nascimento dos filhos, passam a trabalhar em tempo parcial, ou até mesmo a ausência pela licença-maternidade, enquanto essa preocupação não alcança os empregados homens que continuam se mantendo na mesma posição dentro das empresa”, explica Kelly Alves, advogada trabalhista, ao Quero Bolsa.

O que podemos fazer?

Segundo a profissional, devemos “trabalhar a conscientização de mulheres quanto às leis brasileiras que garantem a igualdade de salário e denunciar qualquer prática ao contrário, bem como a mudança de cultura das organizações para enxergar a capacidade das mulheres em desenvolver um trabalho com maestria tanto quanto homens, pois são capacitadas tanto técnica, quanto intelectualmente para as atividades que desenvolvem.”

Em março de 2019, foi aprovado pelo senado um projeto de lei que endurece a cobrança sobre empregadores que praticam discriminação salarial entre homens e mulheres, segundo a Agência Senado.

De autoria do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), o projeto visa que cada caso precisará ser apurado em ação judicial e, se constatada a ilegalidade, a empresa será punida com o pagamento de multa em favor da funcionária prejudicada.

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