“Não fazia ideia de que estava presa em um relacionamento abusivo. Até que as agressões físicas começaram”

Foto: Austin Guevara

Meu relacionamento abusivo começou aos 16 anos quando eu não fazia ideia do que era um relacionamento abusivo. Estava nos meus últimos anos do colégio, focada em estudar e levava um relacionamento conturbado ao mesmo tempo. Combinação impossível eu diria.

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Eu nunca tinha namorado antes, então para mim sempre vi como algo legal eu ter “encontrado um namorado” tão nova, até porque minhas amigas não tinham namorado ainda. Foi tudo novo e cheio de descobertas, porém o abuso mental e físico sempre existiu, embora eu nunca tivesse me dado conta disso até então.
No começo era tudo muito sutil, até mudar para “você não é tão bonita quanto pensa”, “tem gente mais bonita que você”, coisas que me chateavam, mas não me via terminando esse relacionando por isso na época. Acompanhado dos comentários sutis e maldosos, tinham as traições e trocas de mensagens que, ao longo do tempo, passaram para casos sérios e até mesmo eu pegar DST incurável (HPV) por conta disso. No fundo, eu sabia que era errado, mas não entendia que eu tinha a opção de sair desse relacionamento e ser feliz. Os comentários que foram de sutis à escancarados me fizeram acreditar naquela imagem de pessoa feia, sem graça, que era traída. Eu me definia assim.

Meu subconsciente entendeu tudo aquilo como um abuso e eu já não sentia vontade alguma de vê-lo, ter relações sexuais ou qualquer outro contato. Foi aí que os abusos físicos começaram, afinal, “se eu não transasse com ele, ele ia arranjar outra”. Hoje contando esse relato dá vontade de voltar ao tempo e me dar umas boas chacoalhadas, mas você precisa entender que quem sofre abusos está fragilizado e precisa de muita consciência para sair dessa situação – mas eu nem sequer sabia que estava nessa situação, como poderia sair?

Me afastei das minhas amigas, da minha família e via todo mundo que queria ir contra esse namoro como “os vilões da história”. Cheguei a pesar 44 quilos e ter uns 10 fios de cabelo na cabeça, reflexo da relação abusiva que eu sofria. A virada deu quando eu entrei na faculdade e conheci pessoas novas, tive amizades novas – coisas que ele condenava absolutamente pois onde já se viu mulher ter amizade com homem? Para mim, desapegar dele foi mais fácil por eu ter outras coisas novas em minha vida as quais focar: estudo, trabalho, amigos, festas (nessa época já era maior de idade e podia sair legalmente).

Hoje, quase 10 anos depois, ele ainda encontra jeitos de me ameaçar, de me fazer sentir menos do que eu realmente sou. Vez ou outra aparece pra dizer “ainda não desisti, você ainda vai ser minha, torço pra te encontrar por aí”. Claro que depois de muita terapia, feminismo e conversas com amigas, entendo que tudo isso é mais perigoso do que parece, mas me sinto preparada para lidar com essa realidade: expor o agressor e não pensar duas vezes para denunciá-lo. Guardo as provas (mensagens) e pretendo usá-las caso surja a necessidade.

O que eu gostaria de deixar como recado para as meninas que sofrem abusos é: não tenha medo, você nunca vai estar sozinha – mesmo que tenha se afastado de tudo o que faz sentido para você – ainda há esperanças.

O relato corajoso foi compartilhado por uma leitora do DOMÍNIO POP que preferiu não se identificar. Não deixe de denunciar a violência contra a mulher. Disque 180, central que tem por objetivo receber denúncias de violência, reclamações sobre os serviços da rede de atendimento à mulher e de orientar as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente, encaminhando-as para outros serviços quando necessário.

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