Marcela Mc Gowan e Luiza: zero tabu na sexualidade e no amor!

Se tem uma coisa que marcou a minha conversa com a médica Marcela Mc Gowan e a cantora Luiza Martins foi como podemos – e precisamos – falar com leveza e naturalidade sobre assuntos como sexualidade, prazer feminino e representatividade LGBTQ+. Afinal, assim que deveria ser, né? Pra que encontrar tabus em assuntos tão naturais?

Mc Gowan ficou famosa há um ano, quando participou do Big Brother Brasil 20. Em sua passagem pelo reality, mesmo sem intenção, levantou pautas importantes como sexualidade da mulher e feminismo. Hoje, ela usa as suas redes sociais para amplificar debates sobre o assunto e conta que recebe mensagens de muitas mulheres que mudaram as suas vidas sexuais pra melhor por conta de suas declarações.

Luiza também ganhou fama em 2020. O hit S de Saudade, que ela canta com a sua dupla, o cantor Maurílio, explodiu no meio da pandemia. Mas engana-se quem pensa que ela é novata na música. A artista já canta na noite há 12 anos e, com a pausa de shows por conta da pandemia, se vê diante do desafio de se reinventar e explorar novas possibilidades que a fama te trouxe.

As duas revelaram que estão juntas nos últimos dias de 2020, de uma maneira leve, tranquila e cheia, cheia, cheia de amor. No primeiro ensaio e entrevista juntas, fizemos três entrevistas diferentes: Marcella desmitificou todos os tabus envolvendo a sexualidade feminina, Luiza falou sobre a importância de ser uma representação no sertanejo para a comunidade LGBTQ+ e, é claro, batemos um papo delicioso com as duas sobre a rotina de casal em tempos de isolamento social. Vem ver:

Marcela Mc Gowan

DOMÍNIO: Você falou publicamente sobre a sua bissexualidade pela primeira vez no BBB. Queria saber como foi pra vc falar sobre isso em um reality de tanta abrangência.
Eu fiquei bem preocupada no começo porque sem foi sem querer em uma conversa e depois eu me toquei que eu estava em rede nacional. O motivo da preocupação foi porque eu trabalho com mulheres, então era uma questão de como exatamente falar disso. Nos primeiros dias fiquei incomodada, mas depois fui relaxando e pensando: ‘bom, vou ter que lidar com essa declaração quando eu sair daqui.’ No final das contas acabou sendo uma libertação e depois que eu saí do reality foi muito bom porque muita gente se identificou. Rolou uma troca de ideia muito legal com minhas seguidoras. No começo teve esse pânico, mas depois foi libertador.

Acaba valendo a pena pelo fato de as seguidoras se identificarem com sua história, né?
Sim, é muito bom! A gente sabe que não é a realidade de muita gente falar abertamente sobre sua orientação, nem entrar em contato com essa realidade. Então ouvir o que elas tinham pra falar foi bem precioso. 

Você levantou muito a bandeira feminista durante o reality, propôs debates, questionamentos. Você chegou a enfrentar alguma crítica por conta disso? 
Quando eu fui pro BBB20 eu pensei: ‘cara, não vou militar porque muita gente não gostou da militância na edição anterior, então vou dar uma segurada’. Só que o jogo foi acontecendo e as coisas precisaram ser discutidas. A gente sabe que, para o feminismo, sobra coisa boa e ruim. Existe uma estratégia para tentar minimizar e enfraquecer o discurso. Dentro do próprio movimento há divergências sobre muitas coisas, então você acaba esbarrando nisso. E vejo isso desde que eu comecei a falar na minha vida sobre feminismo. Sempre teve gente questionando, gente tentando diminuir e minimizar o discurso, então o que veio depois do programa foi tranquilo pra mim. No fim das contas foi bom porque tive contato com mulheres que estudam sobre feminismo, o que amplificou minha rede. O que era um conhecimento muito inicial virou algo mais profundo. Mas obviamente muita gente me mandou mensagem tentando me diminuir, usar alguma coisa que eu fiz na casa pra invalidar o meu discurso, mas pra mim foi bem tranquilo de lidar. 

Como surgiu essa vontade em você de estudar, de ir mais a fundo, de se profissionalizar em prazer feminino, sexo…? 
Quando eu estava na residência via que mulheres traziam queixas, mas que ninguém as resolvia. Elas falavam ‘ah, não tenho vontade de transar’, ‘tenho dor na relação’, e todo mundo meio que fugia dessas questões e focava mais na parte anatômica. Aí eu vi que existia um gap muito grande porque eu sempre conversava com as pacientes quando eu podia. Nisso, um professor meu viu e me disse que eu falava muito bem sobre esses assuntos. Somado a isso, eu tenho um irmão trans, então viver a história do meu irmão me fez perceber que existia um gap para pessoas transgênero. Eu comecei a estudar mais sobre isso, de como poderíamos abordar esses assuntos e aí foi-se abrindo muitas portas, porque é um assunto que meio que não esgota, né? 

Eu me lembro que fiz um curso super técnico na USP, foi lindo, aprendi todos os diagnósticos possíveis, mas ainda senti que faltava algo. Eu pensava ‘não é sobre isso, não é só sobre doenças, é sobre má informação’. Aí eu fui estudando cada vez mais coisas e, enfim, é um assunto que não para. 

Você já disse algumas vezes sobre a possibilidade de as mulheres chegarem ao orgasmo sem penetração e que isso é perfeitamente normal. Muita gente vem falar com você sobre isso, tirar dúvidas? O que você tem a dizer? 
Esse é um dos maiores tabus do prazer feminino que precisa ser quebrado. Como o pênis é o órgão que auxilia na reprodução, isso acabou sendo a forma institucionalizada do que é sexo. Porém, a nível de prazer feminino esta é a prática que menos dá prazer por questões anatômicas mesmo, as mulheres têm mais prazer na região externa da vulva. Eu recebo muitos relatos de pessoas que sentem prazer só na masturbação, no sexo oral e acham que existe algo de errado com elas, quando na verdade é apenas uma questão básica de anatomia. Por isso eu reforço muito essa ideia de que a penetração nem sempre é a prática que te favorece. Bora se conhecer através da masturbação, conhecer o seu corpo e entender outras formas de ter prazer também. Isso é uma coisa que faz com que o desejo dentro da relação hetero diminua ao longo do tempo porque as pessoas são muito focadas nisso e esquecem todo o restante relacionado a sexo. 

Você sente que as mulheres até sentem uma culpa, do tipo ‘ah, não sinto prazer na penetração…’. Você sente que existe um peso por parte delas?
Existe e é uma questão histórica. Freud disse que mulheres que tinham orgasmo clitoriano eram mulheres “imaturas”, que elas só se tornavam maduras quando tinham o orgasmo na penetração. Isso repercutiu na comunidade médica por anos e se tornou uma crença real para a maioria das pessoas. Até hoje as mulheres se sentem muito culpadas, acham que tem algo de errado, que não gostam do parceiro, que são frígidas… Elas não sabem ter um orgasmo porque acham que a penetração é a única maneira pra se relacionar. Então eles vêm com muita culpa, sensação de que são as únicas no mundo que não sentem orgasmo. É a dúvida que mais recebo, o tabu mais comum na sexualidade. Já dei essa explicação diversas vezes no consultório e mudei completamente a vida sexual das pessoas com uma explicação básica de como, anatomicamente, não é possível ter prazer apenas com penetração.

Pra você, qual é a importância da educação sexual para jovens meninas desde cedo? 
Quando as pessoas pensam em educação sexual nas escolas, acham que a intenção é ensinar as crianças e adolescentes a transar, quando na verdade não é isso. Estamos falando sobre corpo, consentimento, anatomia, gênero… Essas são as coisas que desde cedo já são possíveis de explicar. Esses jovens não têm informações dentro de casa, a gente sabe que esse assunto nem sempre é debatido em família. Sem informação esses adolescentes passam por situações que não precisariam passar na vida, vão aprender sobre esses assuntos em locais que não têm a segurança necessária, como na pornografia, por exemplo. Acho que a educação sexual para jovens deve acontecer, sim, mas é óbvio: adequada para cada idade. Você não precisa falar sobre sexo com uma criança, mas pode falar sobre anatomia, questões de gênero, consentimento… Na adolescência eles já precisam saber sobre prevenção. Então são fases adequadas para discutir cada assunto. 

No Brasil a questão da educação sexual nas escolas foi muito distorcida. Os pais precisam entender o que exatamente é a educação sexual. Existe uma imagem muito errada do que realmente é. 

Luiza Martins

Você é dona do hit S de Saudade, que bombou em 2020. Apesar do sucesso, você chegou a receber críticas ou bullying por conta da sua voz? Como você lida com isso?
Recebi bastante comentário negativo, sim. A música foi o nosso primeiro grande sucesso nacional mesmo. E aí na primeira semana de lançamento já choveram falas e críticas na internet. Muita gente falando que minha voz era de homem, mas assim: o que eu posso fazer, né!? Foi a primeira vez que algo em massa aconteceu comigo. Um dia li as besteiras que as pessoas falavam, mas depois passou e segui em frente. Vi que a música tinha atenção, fez sucesso e isso que importa. 

O sertanejo, infelizmente, é um meio extremamente machista e conservador. Como você, uma mulher assumidamente lésbica, encara tudo isso? 
Eu sei que eu sou uma pessoa que vai contra o óbvio, o considerado “normal”. É complicado porque quando você nada contra a corrente, é um rolê muito difícil. Você vai contra toda uma tradição, porque o sertanejo é um ambiente bem heteronormativo. Eu sou uma mulher, que canta com um homem, a voz mais grossa é a minha, estou em um segmento que é totalmente tradicional… Por outro lado, quando eu e a Marcela contamos que estávamos juntas eu recebi muitas mensagens de mulheres que não se sentiam representadas no sertanejo, que não se viam nesse lugar e agora, sim. E eu não tinha essa noção da representatividade e não tenho problema em falar que estou ainda aprendendo aos poucos. 

Existem muitas meninas que são lésbicas, gostam de sertanejo, mas nunca se viram representadas mesmo. Como você vê a importância de representá-las nesse segmento?
Acho que é muito cruel você tentar se adequar a uma “caixinha” porque todo mundo é assim, sabe!? Eu, por exemplo, se fosse pra fazer a coisa que as pessoas estavam esperando eu fazer, eu nunca teria assumido um relacionamento com uma mulher. Eu fico muito feliz em ser uma pessoa que fala para as outras: ‘não saia do armário, chute a porta do armário e seja quem você é’! Ninguém veio ao mundo pra ser infeliz, não. 

Imagina que assim: se você não pode ser quem você é, você vive uma vida sendo quem? Não é concebível isso pra mim. Eu nunca passei a vida me escondendo. 

Como tem sido pra você, como artista, trabalhar nesse momento tão complicado sem shows? 
Eu canto na noite há 12 anos, vivo disso, e do nada parou. O segmento de shows foi o primeiro a parar e vai ser o último a voltar, então estou tendo que me reinventar. Eu sou privilegiada porque ainda posso usar um pouco da minha imagem. Às vezes faço uma publi, algo assim, mas não é exatamente o que eu sei fazer, né? E eu vejo isso rolando com todo mundo. Tem dias que eu fico pensando: ‘tá, o que dá pra fazer agora? O que eu sei fazer?’ Estou tendo que ressignificar tudo o que está acontecendo. 

Falando sobre mulheres no meio sertanejo, vemos que muita coisa tem mudado nos últimos anos. Pra você o que ainda falta evoluir nesse meio? 
Em termos de bilheteria, as mulheres não ficam pra trás em nada. Temos aí o exemplo de Marília Mendonça, que é campeã em esgotar ingressos para shows. O que eu gostaria de ver mais é mulheres na estrada, nos bastidores, na técnica… Que elas ocupem esse espaço também. 

Quais são os seus planos pós pandemia?
Estamos gravando uma música com participação do Dilsinho e está sendo um processo bem diferente. Nos encontramos em pouquíssimas pessoas, fazendo parte por parte pra não se aglomerar. Vamos dar uma fugida do sertanejo, caminhar em outros estilos. Eu espero que depois da pandemia eu possa colher todos os frutos que rolaram no último ano. Meus últimos hits estouraram quando já estávamos em quarentena, então eu espero ver os frutos desse sucesso quando for possível se aglomerar, fazer shows… 

Marcela & Luiza

Como foi o primeiro encontro de vocês? Como se conheceram?
Marcela:
Nos conhecemos em uma viagem, mas a primeira vez nos vimos ficamos de boa, não rolou nada. Pra falar a verdade nem conversamos muito. Daí quando a Lu foi embora eu fui ver os Stories dela e pensei: ‘nossa, como ela é gata, né!?’ Daí já fiquei meio balançadinha. 

Luiza: Aí uma semana depois eu voltei pra São Paulo e falei pra galera pra gente se encontrar, eu e a Má nos vimos e aconteceu nessa noite. 

Marcela: É, na verdade eu já tinha falado pra uma amiga nossa na viagem que estava com um crush na Luiza e ela foi e “dedurou” pra ela. 

E o primeiro beijo? Quem tomou a iniciativa?
Marcela: Eu que cheguei perto dela e dei a entender que eu queria ficar com ela. As duas queriam, mas eu que tomei a primeira iniciativa. Quando eu quero alguém eu tomo a iniciativa, então deixei claro que queria beijar ela. 

Luiza: Até eu entender o que estava acontecendo eu achei que era na amizade, real! 

Quem disse “eu te amo” primeiro?
Luiza: Já, foi eu. Não foi com a boca, sabe!? Mas eu falei. Eu fui viajar e pensei: ‘se esse avião cair, não posso morrer sem falar que a amo’. Então deixei um bilhetinho escrito ‘eu te amo’ pra ela. 

Marcela: Mas eu também já queria falar faz tempo. Eu só tava assim: ‘meu Deus, se eu falar essa mulher vai sair correndo, né!?’ 

Primeira crise de ciúmes? Já rolou?
Marcela: Já rolou das duas. Nós somos muito parecidas porque as duas não querem admitir que estão com ciúmes, quando na verdade estamos. 

Primeiro jantar romântico?
Luiza: Foi eu que cozinhei quando ficamos sozinhas em uma viagem para Goiânia. 

Primeira viagem? Vai rolar, já rolou? 
Marcela: Foi essa pra Goiânia. Ficamos quatro dias sozinhas.

Foto: Giovanna Iselle
Beleza: Pablo Félix
Stylist: Rafael Menezes
Direção: Ale Monteiro

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