João Cortês fala sobre carreira na música, no cinema e cenário LGBTQIA+ no Brasil

João Cortês é multifacetado. É ator, músico, roteirista, diretor… E agora só colhe os resultados de seu talento que foi recentemente expandido para o cinema. Com dois filmes selecionados em onze festivais, ele ganhou em 2020 o prêmio de Melhor Diretor e Melhor Filme no New Cinema Film Festival, de Lisboa, com o filme Nas mãos de quem me leva, em que assina o roteiro e direção, e acaba de ser selecionado para o Seoul International Short Film Festival 2021, da Coreia do Sul.

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O longa foi rodado quando ele, que hoje tem 25 anos, tinha 23. O longa tem como referência o cinema francês, sueco e escandinavo – que tem um ritmo mais lento, contemplativo, e que foca nas sutilezas das relações interpessoais – e conta a história de Amora, uma jovem de 20 anos que perdeu os pais ainda pequena e desde então mora com sua avó, com quem tem uma relação desgastada. Ao se apaixonar por um homem mais velho e passar pelos desdobramentos que essa paixão causará, Amora vai entendendo que seu destino depende muito mais dela mesma, do que de qualquer fator externo.

“Eu sabia exatamente o que eu queria de cada cena, cada momento… Fui muito certo de minha escolha. Eu me joguei de cabeça na experiência, e enfrentei vários obstáculos pelo caminho”, conta ele ao DOMÍNIO. “Aprendi muito sobre as dinâmicas de um set de filmagem, sobre lentes, câmeras, planos… E descobri um lado meu diretor e roteirista, pelo qual me apaixonei totalmente. Como artista, em um geral, ter atravessado esse projeto me fortaleceu e engrandeceu demais.”

O início nos comerciais

Por muito, João foi conhecido como o “ruivo dos comerciais” por suas aparições em uma propaganda de rede de telefonia celular. Como ator nas novelas, sua estreia aconteceu em 2016 na novela Sol Nascente, da Rede Globo.

Depois disso, ele descobriu outros talentos que foram muito além da atuação: vocação para a música e para o cinema. Quer detalhes sobre tudo isso? Rola pra baixo e leia nosso bate-papo com ele:

DOMÍNIO: Muita gente não sabe, mas você arrasa como roteirista e diretor também. De onde nasceu essa vontade?
João Cortês: Eu sempre gostei muito de escrever. Tenho o hábito de escrever textos e crônicas desde sempre. Foi em 2017 que a ideia do “Nas Mãos de quem me Leva” me veio na cabeça. E comecei a escrever o roteiro, sem muitas pretensões. E em 7 meses o roteiro estava pronto. E a cada vez que fazíamos leituras do filme, eu entendia que eu precisava dirigir. Eu sabia exatamente como cada cena deveria ser, como deveriam ser os planos, os climas… Então me joguei. Fizemos o longa de maneira 100% independente, sem apoio nenhum, e por mais desafiador e insano que tenha sido, foi profundamente emocionante. Me apaixonei pela direção também. 

O seu filme “Nas mãos de quem me leva” tem ganhado prêmios incríveis ao redor do mundo. Conta pra gente como foi dirigir esse longa.
Foi um baita desafio, mas extremamente gratificante! Eu estava muito afim de dirigir, principalmente por ter escrito. Eu sabia exatamente o que eu queria de cada cena, cada momento… Fui muito certo de minha escolha. Eu me joguei de cabeça na experiência, e enfrentei vários obstáculos pelo caminho. Aprendi muito sobre as dinâmicas de um set de filmagem, sobre lentes, câmeras, planos… E descobri um lado meu diretor e roteirista, pelo qual me apaixonei totalmente. Como artista, em um geral, ter atravessado esse projeto me fortaleceu e engrandeceu demais!

Quais temáticas você pensa em abordar em seus filmes?
Eu procuro sempre abordar temas que me inspirem de alguma maneira. Eu escrevo sobre questionamentos, crises, intensidades, medos, curiosidades… Escrevo também muito inspirado em quais histórias eu gostaria de assistir na tela, e ainda não vi. O ousado, o diferente, o imprevisível e até o desconfortável me interessam. Mas resumindo bruscamente, tudo me inspira a escrever. Uma música, uma cena de algum filme ou série, um lugar, às vezes até um cheiro… Eu tento me manter aberto e atento.  

 Divulgação/Italo Gaspar

Atuar, dirigir, roteirizar, ser músico… Qual é a particularidade de cada um desses trabalhos? Tem algo que você se identifica mais?
Cada um desses me desafia de um jeito diferente. Me atiça e me envolve em um lugar completamente distinto. E eu amo poder derramar minha alma, minha intensidade, meu amor em cada uma dessas áreas. É tudo arte, e tudo me emociona e me instiga. Eu construí uma história com cada uma dessas formas, e meu desejo é seguir trabalhando e levando todas elas pertinho de mim. No melhor dos casos, poder juntar tudo em projetos únicos. 

Eu normalmente teria uma resposta muito clara para sua pergunta – de qual me identifico mais – mas nesse momento específico da vida, eu sinto que estou conseguindo trabalhar com tudo junto, e igualmente mergulhado em todos. Estou desenvolvendo projetos como diretor, como roteirista, como ator e como cantor: Ou seja, não poderia estar mais feliz!

Depois que você começou a dirigir filmes, algo mudou pra você como ator?
Sim. Escrever e dirigir me fez um ator mais completo, com uma visão sobre a indústria, sobre o set de filmagem, sobre o ofício, mais ampla. E profunda. Eu particularmente, me tornei melhor ator, por ter sido diretor, por entender o que um diretor precisa, o que se passa na cabeça quando está dirigindo, e como funciona a dinâmica por trás das câmeras. Não só te leva para um outro lugar de respeito, mas também no sentido técnico da coisa. 

Você escreveu algum roteiro durante o isolamento? Pode adiantar pra gente sobre o que é?
Eu escrevi e atuei em um curta-metragem chamado “Lucidez”, produzido pela O2 Filmes, filmado na minha casa durante a quarentena, e que está disponível no IGTV do meu instagram. A fotografia é do meu irmão Gabriel Côrtes. O filme fala sobre a dubiedade que existe dentro de cada um de nós. Os infinitos dilemas, personagens e crises que nos atravessam diariamente, especialmente durante um período de isolamento. Além disso, comecei a desenvolver o roteiro do meu segundo longa-metragem, um filme de temática LGBTQIA+ , mas ainda é cedo pra revelar a história… Em breve vou poder contar mais! Também colaborei no roteiro de um amigo meu diretor e roteirista, mas que infelizmente também não posso falar nada por enquanto. Logo logo eu poderei divulgar!

 Divulgação/Italo Gaspar

Chegou a parar algum projeto por conta da pandemia?
Sim, tinham alguns projetos de séries encaminhados que em breve retomaremos. Além disso, eu lançaria o meu longa-metragem pro mundo, e meu disco. Duas coisas que tivemos que repensar toda a dinâmica. Mas jamais impedir. Vai rolar. 

Sobre sua carreira musical: como você se define como cantor? Quais artistas mais te inspiram?
Bruno Mars, Michael Bublé até a Motown, Stevie Wonder, Michael Jackson, Bill Withers, Tim Maia, Djavan, Ed Motta, Lulu Santos. A lista é grande… Mas me defino como um cantor de Soul, Jazz, Pop, R&B… Eu gosto de passear entre esses gêneros. 

Em 2020 você falou abertamente sobre sua sexualidade. Como você essa importância de pessoas públicas se assumirem?
Em toda minha trajetória, ainda curta, mas já de 8 anos como ator, nunca costumei falar publicamente muito da minha vida pessoal porque tenho o sonho e a vontade de que meus trabalhos estejam sempre em primeiro plano na mídia, como foi até hoje. No entanto, sei o quanto representatividade é importante e por isso resolvi, pontualmente, falar um pouco mais sobre o João como pessoa, além do João como ator, diretor e roteirista… Foi muito importante e significativo esse meu depoimento público sobre esse lado da minha vida. E a ideia foi também contribuir minimamente pra outras pessoas se sentirem mais à vontade na própria pele, e cada vez mais confiantes e orgulhosas de serem quem elas são. Sobre pessoas públicas se assumirem, são pessoas antes de qualquer coisa, e cada um tem seu momento, não acho que deva existir qualquer tipo de cobrança também pra quem não quer falar sobre, fale, isso é um processo individual e totalmente particular.

Como você vê o cenário LGBTQIA+ no Brasil com um governo tão conservador?O Brasil está atravessando momentos obscuros, e quando se fala em diversidade, sabemos que o Brasil é o país que mais mata membros da comunidade LGBTQIA+ no mundo, isso é triste e tem que mudar! 

A vacina já está aí (finalmente!). Qual será a primeira coisa que você fará depois da pandemia?
Vou ao cinema! Nada se compara à saudade que estou de ir ao cinema, comprar uma pipoca, sentar no escuro e assistir um baita filme! 

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