Jéssica Ellen: “vamos exercer a empatia de forma ativa. Não só no discurso”

A versatilidade de Jéssica Ellen como artista está podendo ser vista da melhor maneira nesse começo de ano. Ao mesmo tempo em que aguardamos o retorno de Amor de Mãe, em que Jessica interpreta a professora Camila, podemos nos encher de amor e esperança com o seu álbum recém lançado, Macumbeira.

O trabalho é uma homenagem linda ao seu avô, que era umbandista e proporcionou à Jéssica o seu primeiro contato com a religião. “Tenho uma relação muito forte de afeto e memória afetiva”, conta ela ao DOMÍNIO. “O álbum é uma forma de agradecer e deixar algo no mundo nesse sentido.”

O álbum foi gravado durante a pandemia do coronavírus, período em que Jéssica usou para exercer o autocuidado e desacelerar, algo que não fazia há muito tempo. “Eu, por exemplo, trabalho muito, costumo emendar um trabalho com outro. Óbvio que a pandemia ainda é muito complexa pra muita gente, mas pra mim foi uma oportunidade de pensar: ‘caramba, será que é saudável emendar tanto trabalho assim?’.”

Em um papo delicioso, a nossa capa de fevereiro fala sobre sua conexão com a religião, com a sua personagem em Amor de Mãe e deixa um ensinamento pra gente: exercer a empatia, não apenas no discurso, mas na ação! Leia a entrevista completa:

Gabriella Maria/Divulgação

DOMÍNIO: Você lançou o álbum Macumbeira em janeiro. Eu queria saber pra você, como artista, qual é a diferença do processo de criação de uma música para quando você está atuando? Tem alguma particularidade? 
Jessica Ellen: Nossa, são tantas! Uma coisa que se assemelha entre atuar, fazer a novela e produzir um álbum é o trabalho em equipe. Eu sou geminiana, gosto de trabalhar com gente e acho que aqui ninguém faz nada sozinho. Isso é uma coisa que eu vejo na atuação e na música e que acho bem importante. No aspecto musical, eu sinto que tenho um pouco mais de autonomia – eu que escolho o repertório, entro no tema, no conceito, alinho tudo com meu produtor. No caso de Macumbeira, o processo de produção aconteceu bem rápido. Durante o isolamento, eu mandava mensagens para os meus amigos compositores e em um dia, dois dias depois eles já me respondiam com duas, três canções pra eu ouvir. Então a escolha do repertório se deu de forma rápida. Fazer uma música é um processo em que eu boto mais a minha cara. Como atriz, eu ajudo o autor a contar uma história que ele escreveu.

Esse projeto é uma grande homenagem a umbanda e religiões afro brasileiras. Como aconteceu esse primeiro contato na sua vida com a religião?
Então, eu sou do candomblé, mas o meu falecido avô, pai da minha mãe, era umbandista. O meu primeiro contato com a religião foi muito criança, quando eu tinha 9, 10 anos. Na casa do meu vô tinha um altar com todas as imagens, os santinhos… E também havia toda a cultura relacionada. Por exemplo: dia de Cosme e Damião eu ficava o dia inteiro na rua pegando doce, sempre fez parte da cultura da Rocinha, onde eu fui criada. Ia chegando setembro a gente já ficava ansioso por esse dia. Então sempre foi uma relação de muito afeto, eu tenho lembranças muito boas. Quando meu avô faleceu o assunto ficou um pouco adormecido e só depois de mais velha eu comecei a pesquisar um pouco mais sobre isso. Com 25 anos eu me iniciei no candomblé e comecei esse resgate. Esse álbum é uma homenagem ao meu avô e todas as pessoas que ajudaram a manter viva a cultura da umbanda, uma forma de agradecer e deixar algo no mundo nesse sentido. 

Gabriella Maria/Divulgação

Acredita que sua crença tenha te ajudado de alguma forma durante esse período de isolamento?
Com certeza. O brasileiro tem essa coisa da fé, né? De manter o otimismo. E sem dúvidas a religião foi algo que me ajudou a me centrar, porque a gente não sabia que ia ser um período tão desafiador e ainda tem sido. Eu lembro que quando chegou a notícia que Amor de Mãe ia ser paralisada a gente achou que ia ficar no máximo um mês em casa. Todo esse processo de autocuidado, meditação e reza me ajudou muito. Durante o quarentena o pai de santo usou da tecnologia para fazer os encontros e as rezas de forma virtual. Cada um estava da sua casa, mas a gente estava ali conectado com a fé e tendo um autocuidado espiritual. Acho que se a gente está com a cabeça boa, se estamos com equilíbrio, a gente consegue passar pelos problemas de forma mais centrada. 

Inclusive no seu Instagram você falou muito sobre autocuidado através de lives com convidados. Como foi importante essa iniciativa pra você? 
Então, foi bem parecido com a questão da religião. Eu comecei a ver muitas pessoas da minha casa de santo e amigos próximos terem crises de ansiedade porque era tudo muito incerto, a gente não sabia quando ia sair a vacina. A maioria das pessoas que apareceram nas lives são meus irmãos de santo. Imagina: uma casa de santo tem quase 200 pessoas, cada um com sua profissão. Tem muitos psicólogos, profissionais de educação física, de cuidados com o corpo… Daí eu pensei: o que precisamos para passar bem por esse período? Se alimentar bem, daí chamei amigas nutricionistas pra falar; fazer exercícios, daí chamei professora de dança, de yoga; e cuidar da parte espiritual, porque nós somos esse complexo todo. Foi uma tentativa de democratizar a informação sobre autocuidado, tornar mais acessível. E ainda vejo muitas pessoas buscando sobre isso e falando sobre também, então é uma busca de muita gente. Acho que quando cuidamos de nós mesmas cuidamos melhor da nossa casa, do lugar onde a gente mora… 

Gabriella Maria/Divulgação

Você acredita que essa quarentena foi essencial para as pessoas se reconectarem com elas mesmas, com a autoestima…? 
Eu acho que quem não entendeu o recado de 2020 está perdido ainda. Foi um tempo em que as pessoas ficaram mais em casa, isoladas, então pode ter sido uma oportunidade de olhar pra dentro e desacelerar. Eu, por exemplo, trabalho muito, costumo emendar um trabalho com outro. Óbvio que a pandemia ainda é muito complexa pra muita gente, mas pra mim foi uma oportunidade de pensar: “caramba, será que é saudável emendar tanto trabalho assim?”. E também muitas vezes que eu fiz isso era porque eu precisava botar comida na mesa, pagar as contas… O que foi maneiro de perceber foi a necessidade desse equilíbrio. É importante, sim, trabalhar, mas é importante também ter uma pausa pra ter refeições em um horário digno, por exemplo. Acho que todo mundo teve que rever as suas estruturas e também olhar para o lado social com um pouco mais de atenção, afinal, a sua realidade nunca será a realidade do outro, né? Foi essencial para exercer essa empatia, mas de forma ativa mesmo. Não só no discurso e na fala, mas ir pra ação. Acho que foi um período importante pra isso também. 

Você já falou em algumas entrevistas que não se identificava com as mulheres estampadas nas revistas quando era mais nova. Você acredita que ainda hoje falta mais representatividade? Vê com bons olhos nas mudanças que estão acontecendo?
Olha, eu acho que melhorou comparado com o que era quando eu era criança. Imagina: naquela época eu só via mulheres brancas e magras estampadas nas revistas. Melhorou muito, mas ainda está bem longe do que eu espero como sociedade. Em janeiro, por exemplo eu fiquei tão feliz quando vi a Mc Carol na capa da Elle. A Carol é uma mina tão incrível, muito potente. Por ela se gorda ela ainda relata as dificuldades que sente no avião, no ônibus, os bancos não acomodam, né? E ela está na capa de uma revista de moda falando sobre isso, então de fato é um avanço. Só que precisa ser mais amplo. O que me incomoda muito é que as pessoas só lembram da nossa existência em novembro, né? A gente quer ser lembrado de janeiro a janeiro, não só em 20 de novembro. Fica uma coisa de “justificar aquele lugar, estamos sendo mais democráticos”, quando na verdade não é tão assim, sabe? E não só pra mim e pra população preta. Eu não tenho na memória, por exemplo, de ter visto uma indígena na capa de uma revista. Quando eu falo sobre representatividade, eu, como mulher preta, quero, sim, ver mais mulheres pretas nas capas, mas também quero ver mulheres gordas, trans, indígenas e falando sobre outros assuntos porque a gente é muito diverso.

Gabriella Maria/Divulgação

Você nasceu e cresceu na Rocinha e sempre teve a oportunidade de estudar. Como você vê a educação no Brasil hoje, principalmente pra quem vive nas comunidades? 
Infelizmente, eu acho que hoje em dia está muito precário porque não tem mesmo um plano de educação pública. Na época que eu estava na escola tinha um monte de atividades, reforço escolar… Eu lembro que onde eu estudava tinha semana da poesia, da música, dos esportes. Tinham outras possibilidades. Hoje em dia, eu vejo pelas minhas primas que são mais novas, não existe uma expectativa de mudança e oportunidades. Não tem o apoio do governo, não tem incentivo à cultura… Isso é muito triste porque quando as pessoas elogiam meu trabalho eu lembro que só consegui isso porque lá atrás eu tive educação, tinha um investimento na época em que eu e meus irmãos estávamos estudando. Eu fico de verdade com muito receio do que vai ser essa juventude que está crescendo agora. Tivemos um avanço muito pequeno. Isso pra mim é um plano de governo: fazer com que as pessoas não avancem para continuar deixando as classes baixas mais baixas ainda. Sabe aquela música de axé que diz “onde o rico fica mais rico e o pobre fica mais pobre”? É muito triste ver como as coisas estão hoje em dia. Mas também é aquela coisa do brasileiro: a esperança é a última que morre. Eu espero que a gente possa conseguir a aprender a votar. A mudança deve começar nas urnas.

Na novela Amor de Mãe teve uma cena que me marcou muito que você falou sobre a força da mulher, em especial da mulher negra. Em que momentos da sua vida você se vê nesse lugar de “mulher guerreira”?
Eu lembro que na minha adolescência eu estudava muito, então eu acordava 5 da manhã, estudava a parte da manhã inteira, depois ia pra um curso, depois pra outro e só chegava tipo 10 da noite em casa de volta. Parece que a gente precisa correr três vezes mais pra poder caminhar ao lado de pessoas brancas ou que já têm um acesso maior à informação para ocupar os lugares de poder. Então eu já vivi alguns momentos desses. Ao mesmo tempo tendo que agarrar as oportunidades que apareciam e tendo que buscar energia dentro do cansaço. Uma coisa que estou aprendendo é desacelerar e ver que sim, também temos direito ao descanso, de renovar as suas energias… Sabe, eu amo trabalhar, eu faço o que eu amo, só que não é saudável emendar um papel atrás do outro porque não tem pausa, né? Enquanto eu vejo pessoas brancas anualmente tirando férias e fazendo isso de uma maneira natural porque já está estabelecido assim pra eles. Dar uma pausa, tirar férias é algo que estou começando a me “presentear” agora. Essa cena da novela que você citou é muito especial pra mim. Falaram tanto dela, então quer dizer que não é um caso isolado. Muitas pessoas vivem esse processo também.

Quais são as suas expectativas para o retorno da novela? O que pode adiantar pra gente?
Posso dizer que Camila vai viver muitas emoções. Essa menina é guerreira demais. Sobre a história eu não sei muita coisa porque nesse retorno a gente só recebeu as nossas cenas, então eu não sei como ficou o final da Vitória, por exemplo. Então eu também estou nessa expectativa, nessa curiosidade pra saber o que vai rolar. 

Gabriella Maria/Divulgação

Como você se identifica com a Camila? 
Eu me identifico com muitas coisas com minha personagem. A relação dela com a educação, com o desenvolvimento dos jovens através da arte. Me identifico muito com os posicionamentos dela em várias cenas da novela, dela ser feminista, ter uma relação forte com o próprio corpo. Ela protagoniza cenas importantes de serem exibidas na TV e que têm o alcance de tanta gente.

Pra finalizar, conta pra gente qual será a primeira coisa que você fará depois da vacina?
Acho que marcar uma praia com os amigos, fazer um churrasco pra comemorar, ver e encontrar as pessoas. Nossa, é tanta coisa que eu estou com saudade de fazer. Espero que a população inteira consiga se vacinar e se organizar e que 2021 seja mais leve do que o ano passado. 

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