Ícone do ano: os profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate à pandemia

No dia 26 de fevereiro de 2020, o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso de coronavírus no Brasil. No dia 17 de março, o país registrou o primeiro óbito, um homem de 62 anos em São Paulo. Dez meses após a confirmação do caso número um, o país já acumula mais de 7,2 milhões de pessoas infectadas e quase 187 mil mortes.

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Desde o início da pandemia de covid-19 era sabido da gravidade da doença. Que não era apenas uma “gripezinha” como outra qualquer. Porém, nem todos levaram a sério e uma série de discursos negacionistas tomaram as redes sociais. O resultado desse “escapismo” da realidade dos fatos foram medidas de proteção ineficazes que sobrecarregaram o sistema de saúde em vários locais do Brasil.

Foto: Thiago Castro

Profissionais como médicos, enfermeiras, auxiliares e todos os outros que estão na linha de frente do combate ao coronavírus estão exaustos. São meses lidando com essa doença que ainda não possui vacina aprovada no Brasil e nem um medicamente totalmente eficaz. São meses salvando vidas e implorando por uma maior conscientização por parte da população.

Em 2020, o DOMÍNIO elege os profissionais de saúde como os verdadeiros ícones do ano. Acompanhamos as suas rotinas em um hospital de São Paulo e, apesar de tudo que já viveram e presenciaram esse ano, admiramos o tom otimista para 2021.

Todo nosso respeito e agradecimento a essas pessoas que, mesmo exaustas e com a saúde mental destruída, seguem na linha de frente, além de permanecerem vigilantes.

Doutor Rodrigo (Foto: Thiago Castro)

A gravidade do coronavírus

Para a doutora Dania Abdel Rahman, médica infectologista responsável pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar e Infectologista Clínica do Hospital Albert Sabin de São Paulo, a ficha da gravidade da pandemia caiu quando ela presenciou pessoas morrendo muito mais rápido do que o esperado, incluindo colegas de trabalho.

“Para mim, a principal mudança foi trabalhar com medo. Porque além do medo de perder os pacientes começamos a ter medo de pegar o vírus, e pior ainda, medo de transmitir o vírus para nossas famílias”, conta ela. “Isso foi muito difícil porque tive minha filha no início da pandemia, e, quando voltei a trabalhar, fiquei com muito medo de passar para ela.”

Doutora Dania Abdel (Foto: Thiago Castro)

Segundo ela, o momento mais difícil foi ver colegas de sua idade morrendo. Mesmo diante desse cenário caótico, ela segue otimista por dias melhores. “O que mais me fez ter esperança é saber que um número enorme de profissionais se concentraram a estudar incansavelmente o vírus, procurando possíveis tratamentos e desenvolvendo as vacinas”, disse.

Para o doutor Rodrigo Prado, clínico geral do Albert Sabin, o sinal de atenção se acendeu logo no fim de 2019, quando médicos chineses começaram a relatar em fóruns a gravidade de uma síndrome respiratória no país. “Algumas postagens, inclusive, anexavam vídeos com pacientes em estado grave ou pessoas desmaiando na rua. Quando as notícias internacionais começaram a relatar que tal doença espalhava-se pelo mundo confesso que já fiquei preocupado desde então”, conta.

O médico alerta ainda que a covid-19 é uma doença extremamente traiçoeira. Pessoas que chegaram ao posto de atendimento com sintomas brandos acabaram evoluindo rapidamente para uma situação mais grave. “Atendi uma paciente, uma senhora que sempre me lembro. Naquele dia, ela chegou sentindo pouca falta de ar. Apesar do quadro relativamente brando, a tomografia mostrava um acometimento pulmonar considerável (de 25% se não me engano). Solicitei a internação da paciente e tranquilizei a família porque acreditava de coração que aquele caso seria apenas mais um caso de recuperação da doença e que em poucos dias a senhora estaria de volta para casa. Infelizmente, contudo, a evolução dela foi muito ruim e em questão de três dias ela teve que ser intubada e em dois acabou indo a óbito. Os familiares buscaram contato comigo (e demais equipe do PS) para agradecer pelo atendimento dado à paciente, mas enquanto ouvia as palavras dos familiares só conseguia lembrar do que eu havia dito. Essa doença pode ser muito traiçoeira”, relembra Rodrigo.

Kellen Milene (Foto: Thiago Castro)

O negacionismo

Um dos elementos que mais prejudica a pandemia, na opinião dos médicos, é o negacionismo, ou seja, pessoas que negam os fatos como uma forma de escapar da realidade. Em assuntos relacionados a saúde, movimentos negacionistas podem colocar a vida de muitas pessoas em risco.

“Existem várias versões sobre o vírus: pessoas que exageram, pessoas que não reconhecem a letalidade do vírus, e os governante que politizaram a pandemia”, opina Kellen Milene da Silva, enfermeira do Hospital Albert Sabin. “Acredito que tem que haver equidade em todas as esferas. Meu recado seria: vamos respeitar as orientações de higiene, uso da máscara e não fazer aglomerações.”

Para a doutora Dania, essa resistência das pessoas em aceitar a gravidade da situação impacta na adesão delas às medidas de prevenção. “O recado que eu daria a essas pessoas é: pensem no próximo! Cada vez que alguém não segue as recomendações, não usa máscara, promove festas com os amigos e frequenta locais com aglomerações, não está comprometendo somente a própria saúde e expondo somente a si próprio. Esse comportamento é egoísta e até desumano, porque pode levar à exposição de pessoas que fizeram sacrifícios para cumprir o recomendado. Ou seja, a escolha de sair de casa e se arriscar a pegar o vírus não respeita a escolha de um familiar que ficou em casa para não se expor. O mais grave é que esse comportamento pode levar à um desfecho muito pior, como a morte de alguém”, alerta a profissional.

Cibele e Kellen (Foto: Thiago Castro)

O médico intensivista Gustavo Sales diz que há muita politização da pandemia e revela que nunca viu algo parecido com a gravidade da covid-19. “O acometimento de vários órgãos é muito rápido, mas o fim, seja com um desfecho feliz ou triste, geralmente é lento. O que mais nos entristece é a solidão da doença, o estado de isolamento de seus amigos e entes queridos, no momento em que o paciente mais precisa deles”, conta.

“Para essas pessoas negacionistas, eu diria: cuidem-se, protejam suas familiares e amigos. Covid é um vírus com extrema capacidade de ser transmitido, algumas pessoas tem sorte de ter sintomas leves, mas outras não tem essa sorte, portanto não devemos negligenciar a dimensão de uma pandemia com alto número de mortos”, diz a supervisora de enfermagem Cibele da Silva.

Outro fato que prejudica o diagnóstico precoce e a chance de sobrevivência dos pacientes é que muita gente ignora os primeiros sintomas da covid, achando que se trata de uma gripe comum. Para o doutor Rodrigo, isso é um erro. “Para os leitores em geral o recado é que: ao menor sinal de ‘resfriado’ ou ‘gripe’ (Coriza, tosse seca, mal estar, dor de garganta, dor no corpo, febre…) procure auxílio médico – presencial ou tele – e, se possível, faça o teste! Para as pessoas que não acreditam na gravidade meu recado é simples: o coronavírus não se importa se você acredita na pandemia ou não.”

Doutor Gustavo Sales (Foto: Thiago Castro)

E como ficou a saúde mental?

Se a nossa saúde mental em meio a pandemia do novo coronavírus acabou ficando abalada, imagina a dos profissionais de saúde que precisam lidar diariamente com a morte de pacientes e colegas. “Está sendo bem difícil! Apresentei Síndrome de Burnout mês passado, fiquei bem esgotada, e ainda estou até hoje”, conta a médica cardiologista de UTI Jomara Custódio. “Tenho assistido muitas séries e tentado sair para relaxar, dentro do permitido.”

Para Dania, a família, apesar de preocupada com o fato dela estar atuando na linha de frente, é um dos pilares que a mantém bem nos momentos difíceis. “Minha família sempre foi muito colaborativa e me deu todo o suporte para que eu pudesse desempenhar meu trabalho da melhor forma. Minha mãe e meu marido foram fundamentais”, conta.

Doutora Jomara (Foto: Thiago Castro)

Otimismo para o futuro

Cibele acredita que o início de 2021 ainda será difícil, porém segue otimista para a aprovação de uma vacina segura logo e um controle da pandemia do coronavírus. “Acho que 2021 será um ano ainda com algumas privações e dificuldades, mas tenho fé que será um ano muito melhor que 2020.”

A doutora Dania alertou que a vacinação possa demorar para chegar ao Brasil por conta de “jogos políticos”. “Parecem estar acima da intenção de proteger as pessoas e evitar mortes”, desabafa.

“Estou bastante esperançoso e confiante com relação a vacinação. Parece que faremos uso da vacina desenvolvida em conjunto com o Instituto Butantan, que vem promovendo a vacinação dos brasileiros há muitos anos e conta com toda a credibilidade.”

E no meio de todo esse caos, ainda existem momentos no dia a dia que enchem esses profissionais de esperança. “Nosso primeiro paciente grave foi de alta para casa. Ele teve muitas complicações (pulmonares, renais, cardíacas), e foi embora bem. Na semana seguinte entrei em contato com ele e a emoção foi muito grande”, lembra o doutor Gustavo. “Repito aqui, que não é hora de politizar a doença, e sim de unirmos forças para combater esse vírus.”

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