“Eu não sei mais me relacionar”: como a pandemia afetou a nossa capacidade de socializar

Em um ano de pandemia, eu saí de casa pouquíssimas vezes – em 99% dos casos, apenas para atividades essenciais, como mercado ou farmácia. Em outubro do ano passado, quando os casos de covid no Brasil caíram, eu me permiti encontrar alguns amigos em um parque – local totalmente aberto e todos usavam máscara. Porém, o momento que deveria me trazer alívio e uma sensação de descontração me deixou tenso. Eu percebi que não conseguia mais socializar com pessoas tão queridas como antes – e olha que eu sou uma pessoa EXTREMAMENTE sociável. Eu me senti alerta o tempo inteiro, à espreita. Ao invés de relaxar, voltei pra casa mais ansioso. Afinal, o que a pandemia fez com a nossa capacidade de se relacionar?

Leia também:

“Durante a fase de afastamento social, aprendemos um novo modelo de comportamento frente ao outro com objetivo de tentar garantir segurança”, explica Elen Contro, psicóloga organizacional e sócia da Humano Mais. “Fizemos com que nosso cérebro associasse proximidade com perigo e, por isso, passamos a nos relacionar, pessoal e profissionalmente, por meio das ferramentas virtuais.  Claramente, percebemos que o coronavírus provocou uma grande revolução no comportamento social, sendo que muitas dessas mudanças serão permanentes e nos conduzirão a um novo formato de convívio que afeta a nossa forma de comunicar, trabalhar, oferecer serviços e aprender.”

Embora seja difícil de acreditar, algum dia seremos capazes de nos reunir de maneira saudável na casa uns dos outros e em locais públicos – agora, obviamente, não é o momento, já que estamos no pior momento da pandemia no Brasil. Enquanto esse momento não chega, como podemos minimizar os danos da falta de socialização mesmo estando em isolamento?

“Quando você para, se sente e se percebe, à sua volta pode estar um caos, cheio de conturbações, mas você mantém a calma”, alerta Leonardo Morelli, psicólogo, especialista em psicoterapia. “Faz bem tanto pro seu corpo físico, quanto pra sua mente. Uma yoga, meditação, uma escrita, uma respiração coordenada… Tudo isso é um encontro com você mesmx. Você diz pro seu cérebro que está bem, e as coisas começam a ficar melhores, mesmo que as coisas ao redor ainda estejam muito difíceis.”

Conversar com os amigos, mesmo que virtualmente, ajuda a oxigenar nosso cérebro e emoções. “Não gaste muito tempo com as más notícias e não se contamine com informações inúteis nesse momento”, indica Elen Contro. “Outro ponto é cuidar da saúde, alimente-se bem, e fazer exercícios físicos, eles estão muito relacionados aos altos níveis de saúde mental.”

Chamadas de vídeo: estamos esgotadxs!

Ok, precisamos nos conectar mais com nossos amigos de maneira virtual. Mas chamadas de vídeo têm nos deixado exaustos ao longo do último ano. A ascendência do Zoom contribuiu para o esgotamento coletivo de muitos – particularmente aqueles encarregados de reuniões frequentes e com grande participação no ambiente de trabalho.

Um dos motivos pelo qual ficamos mais cansados nas reuniões por vídeo é que esses aplicativos fornecem apenas a ilusão de contato visual – se você estiver olhando para a câmera para parecer que está fazendo contato visual com os outros participantes, não poderá vê-los. Se você está olhando para eles, eles não podem olhar diretamente nos seus olhos. E outra: mudar constantemente entre os dois é cognitivamente desgastante e nega aos nossos cérebros o benefício que normalmente recebemos da interação pessoal, afirma Celeste Headlee, jornalista, ao The Cut.

“Desligue a visualização da sua própria imagem, não estamos acostumados a ficar nos olhando por tanto tempo, e estudos mostram que isso gera estresse”, conta Elen.

Além disso, é importante determinar essa quantidade de tempo das chamadas de vídeo, alerta Leonardo, e lembrar que isso é você quem põe o limite, não o outro. Pense sempre até que ponto você pode ficar bem com isso. Ter uma responsabilidade sobre isso.

O bom e velho telefone

É claro que não existe tecnologia que reproduza a exata sensação de socializar com os amigos. Porém, algumas opções podem se sair melhores. Já pensou em experimentar o clássico telefonema?

As ligações por telefone nos dão acesso aos mesmos efeitos de aumento de humor e redução do estresse que as conversas pessoais, sem ser tão invasivas quanto as chamadas via Zoom.

Esta, por hora, é a melhor maneira de manter a sua capacidade de socializar ativa.

Foto: Unsplash

Comments

comments

Leave a Reply
Your email address will not be published. *

Click on the background to close