Criadora do movimento “Surfistas Negras”, Erica Prado luta contra o preconceito no esporte

O primeiro contato da surfista Erica Prado com o surfe foi cedo, logo na pré-adolescência. Aos 14, já estava competindo. Com 16, foi campeã baiana. O seu match com o esporte aconteceu tão logo serviu pra mostrá-la algo que ela queria para o resto da vida.

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“A partir dos 11 anos eu já comecei a aprender a surfar muito por influência do meu irmão mais velho, que começou a praticar antes de mim”, conta ela ao DOMÍNIO. “Eu sempre uma tive uma conexão muito forte com o mar, sempre gostei do ambiente praiano. Antes de morar em Itacará, na Bahia, eu morei em Arraial do Cabo, no Rio, então sempre fui da praia. Praticar um esporte à beira do mar, e ainda algo que me proporciona sensações tão legais, foi paixão à primeira vista.”

Os maiores desafios

Logo no começo da carreira, durante a adolescência, Erica conta que já enfrentava a falta de patrocínio – muitas vezes alimentada pelo machismo. “Como aconteceu tudo muito rápido eu não tive o suporte da carreira profissional que acompanhasse aquele ritmo. Então meu desafio foi esse: ir pro campeonato e não ter dinheiro. A maior parte da minha carreira não tive patrocínio”, revela a surfista.

“Outra coisa: no surfe precisamos de bons equipamentos e não eu não tinha investimento nisso”, acrescenta. “Às vezes chegava nos campeonatos e minhas adversárias sempre tinham 8 pranchas, eu sempre tive duas, no máximo três. Isso tudo foi um desafio.”

Movimento Surfistas Negras

Além de arrasar no esporte, Erica também se vê em uma outra missão muito especial como surfista: o de incluir meninas e mulheres negras nesse ambiente. Ela é responsável pelo movimento Surfistas Negras, que nasceu no Instagram mas tem grande impacto fora da rede social também.

“Eu sempre participei de processos seletivos para comerciais, trabalhos de moda e já ouvi de muitas pessoas que eles não colocariam surfistas negras ali porque não existe. E eu ficava ‘nossa, como assim? Somos tantas!'”, lembra ela. “De fato quando você abre uma revista de surfe você não vê mulheres negras em evidência. Fomos invisibilizadas todos esses anos. Essa máquina está mudando agora que estamos conseguindo mais espaço.”

Segundo Erica, o movimento nasceu com o intuito de mostrar que existem muitas mulheres negras que surfam, são profissionais dentro e fora d’água, além de estarem entre as melhores do Brasil – Juliana Santos, campeã brasileira de 2019, e Yanca Costa, campeã de 2020, são mulheres negras.

“As últimas campeãs brasileiras estão sem patrocínio, enquanto outras têm e conseguem viver do surfe tranquilamente”, aponta Erica. “É uma desigualdade, um racismo estrutural que nos afeta diretamente e muita gente não consegue enxergar. As pessoas questionam ainda, dizem que não existe racismo no surfe. Como assim, né? Essas pessoas nunca se perguntaram o porquê de ter só mulheres brancas ganhando patrocínio, indo nas surf trips? O nome disso é racismo, só que está tão enraizado que as pessoas não conseguem perceber. Eu venho com esse movimento para trazer esse assunto pro debate, pra galera refletir e debater.”

Mudanças positivas

Apesar do cenário nem sempre positivo para mulheres negras, Erica vê mudanças no horizonte. “Eu sinto que, desde 2020 esse debate da questão racial que foi muito veiculado na mídia teve muito reflexo no surfe. Eu vejo uma preocupação de algumas pessoas de ouvir e tentar mudar o cenário”, conta ela.

“Muita gente começou a perceber que tem coisa errada ali e já está tentando fazer a diferença. Um exemplo é o canal OFF, que por muito tempo não apresentou surfistas negras em sua programação e está preparando um programa só com essas mulheres. Então é um passo importante da nossa história, de trazer mulheres negras como protagonistas. É uma virada de chave, mas ainda falta muito a ser feito.”

Para as meninas que pensam em começar a surfar, Erica tem um conselho: apenas comece! “Sintam-se acolhidas, abraçadas. Vocês vão encontrar desafios, é um esporte bem machista e racista, mas tem muita gente legal nesse ambiente também. Muitos projetos interessantes têm como objetivo auxiliar mulheres e acolher, auxiliando nessa evolução. Procure uma amiga, uma professora e vamos pra água!”

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