Coronavírus: como lidar com a saúde mental em tempos de pandemia

Fotos: Unsplash

Seja a tensão de ficar confinado em casa, a preocupação com seus entes queridos e amigos ou o receio de ser demitido com possíveis impactos econômicos, a pandemia do novo coronavírus pode afetar diretamente a sua saúde mental, agravando o medo e a ansiedade.

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Em meio a crise provocada pela covid-19, o medo pode ser um sinal positivo de alerta. “A sensação está relacionada a sobrevivência diante de uma situação de perigo”, conta Ana Paula Carvalho, médica psiquiatra e do Estilo de Vida pela Harvard Medical School, ao Domínio Pop. “É importante que faça parte da nossa vida. Uma pessoa que não tem medo não é uma pessoa com coragem, é descuidada e ignora cuidados. É o fator protetor. Neste momento é o que nos faz higienizar as compras de supermercado, limpar as mãos, usar máscaras…”

Porém, quando em excesso, esse sentimento pode se tornar um agravante para outros problemas de saúde. “O medo começa a se tornar um problema quando a pessoa tem prejuízo em diversas áreas da vida, seja no trabalho, nas atividades acadêmicas e sociais”, alerta o Dr. Glauber Higa Kaio, médico psiquiatra, vice Presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria – Capital, e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). “O medo em excesso, por exemplo, pode alterar o sono, o que altera o humor, o que leva a uma piora do sono e, assim, o indivíduo entra num ciclo vicioso.”

No caso da pandemia, o medo em excesso faz com que a pessoa deixe de fazer coisas que são importantes pra ela, mesmo em tempos tão críticos, como ir a farmácia, ao mercado ou ao médico caso realize algum tratamento crônico.

A ansiedade é outro problema bem comum em tempos como esse – ao contrário do medo, que está relacionado ao presente, a ansiedade está ligada a preocupação a respeito do futuro. E, se descontrolada, ela pode trazer várias consequências bem chatinhas. “A pessoa pode apresentar um sono ruim, uma alteração no apetite, e isso pode levar a uma diminuição na imunidade”, conta o Dr. Glauber. “Dificuldade de concentração e atenção podem também ser consequências. E essa ansiedade descontrolada pode levar a depressão. Além disso, a pessoa pode ‘jogar’ todo esta reação para o corpo (somatização). Dessa forma, ela pode apresentar outras doenças, como exemplo, doenças na pele, no trato digestivo ou até piora de alguma doença pré-existente.”

Saúde mental na quarentena

Tais sentimentos relacionados ao medo e ansiedade também têm relação com o período de quarentena. Neste momento, é importante que sabemos diferenciar o isolamento social do isolamento físico – este segundo é importante para controlar a pandemia, porém, é essencial manter contatos sociais por telefone e chamadas de vídeo. “Se mantenha conectado socialmente com os amigos e aproveite as ferramentas online para entrar em contato com entes queridos”, indica Ana Paula.

“É importante aceitar a crise que estamos passando. Aceitar a realidade”, aponta o Dr. Glauber. “Saber que este período que estamos passando deve levar um tempo maior que imaginávamos.”

Como aliviar?

Existem algumas formas simples de aliviar sentimentos relacionados a ansiedade, como a prática de exercícios físicos, meditação, fazer atividades que gosta e filtrar as notícias dos meios de comunicação – é muito dificil sair dessa situação de estresse se você fica ouvindo e falando sobre o assunto 24 horas por dia.

“Além disso, ter uma boa qualidade de sono, portanto, evitar cochilos durante o dia – exceto após o almoço e não mais que 40 minutos -, ficar muito tempo deitado antes de dormir ou após acordar de manhã e evitar cigarro, bebida alcoólica e alimentos e bebidas que tenham cafeína ou xantina – café, chá preto, mate, refrigerante tipo “cola”, guaraná, chocolate, chimarrão e chá verde.”, alerta o doutor. “Vale a pena lembrar que alimentos ou bebidas estimulantes também exacerbam a ansiedade. Por fim, lembrar da espiritualidade. Quem dá valor a parte espiritual tem uma maior resiliência, segundo estudo da Universidade de Columbia publicada em 2016.”

Exercícios físicos podem ajudar a controlar a ansiedade na quarentena

Entrar em uma rotina também pode ajudar a colocar a cabeça no lugar nesses tempos. “A rotina organiza, faz com que a pessoa tenha uma sensação de tranquilidade e certa normalidade. Atenção a hora dos exercícios físicos, de dormir, das refeições, se atente ao home office para não trabalhar excessivamente…”, diz Ana Paula.

A psiquiatra também destaca a solidariedade. “A condição tem efeitos bons na saúde mental: ajuda a liberar neurotransmissores cerebrais relacionados ao bem estar e ao prazer”, destaca.

O estresse pós-traumático

Mesmo quando a pandemia acabar e o “novo normal” entrar em vigor, é preciso manter-se atento a saúde mental. “O estresse pós traumático é uma doença que pode ficar depois que tudo isso passar. Daí vem a importância de cuidar da saúde mental hoje”, alerta Ana Paula. Não fazer nada das dicas citadas acima pode agravar e aumentar as chances do estresse pós-traumático. 

No caso de quem teve, ou presenciou alguém próximo com a covid-19, o pós-trauma também pode permanecer. “Sintomas de estresse pós traumático e de depressão podem ocorrer até após 3 anos, como foi apontado em dois estudos de pesquisadores da Universidade de Columbia, um de 2009 e outro de 2012, respectivamente”, conta Dr. Glauber.

Os sintomas do estresse pós traumático pode ser lembranças persistentes – reviver involuntariamente o trauma através de memórias angustiantes e repetitivas -, pesadelos ou sensação de que o evento traumático está acontecendo novamente.

Pedindo ajuda

Se ainda a pessoa persiste com este medo exagerado, aí vale a pena procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica através de atendimento online – descubra onde encontrar atendimentos gratuitos. “Para reforçar a importância do atendimento/acompanhamento psicológico/psiquiátrico, existe um estudo sul coreano, de Jeong e colaboradores publicado em 2016, que mostra que a pessoa que já tinha um transtorno mental teve muito mais ansiedade e raiva até 6 meses após a saída da quarentena. Aí está a importância de continuar o tratamento psicológico e/ou psiquiátrico”, relata o Dr. Glauber.

“Se você perceber que alguém precisa de ajuda, a primeira coisa que você pode fazer é dizer que percebeu, poder ouvir essa pessoa e depois que ouvir poder dar o encaminhamento para ajudar”, indica Ana Paula. “O mais importante é ouvir, dizer ‘eu to aqui’ sem julgamentos.”

Quem ajudou? Ana Paula Carvalho, médica psiquiatra e do Estilo de Vida pela Harvard Medical School; e Dr. Glauber Higa Kaio, médico psiquiatra, vice Presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria – Capital, e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)


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