Sista Kátia é feminista, artista, grafiteira e você PRECISA conhecer mais sobre ela

Sista Kátia. 31 anos. Grafiteira. Feminista. Instrutora de defesa pessoal para mulheres. Ativista do veganismo. Digital influencer. Trabalha com moda. Ufa! Será que dá tempo de ser tudo isso? Pra Kátia dá!

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A gente inicia a nossa sessão que mostrará uma série de mulheres inspiradoras e que estão lutando para fazer uma diferença em nossa sociedade com essa poderosa conectora urbana – como ela mesma se define – que, além de estar dando passos largos para dar uma maior visibilidade a trabalhos e projetos feitos por mulheres, é dona de um carisma de se apaixonar – sério, foi uma delícia ouvir ela responder todas as nossas perguntas.

Dá só uma lida nosso papo e prepare-se para levar a Sista como inspiração também.

DOMÍNIO POP: Você é grafiteira, produtora cultural, instrutora de defesa pessoal para mulheres, ativista do veganismo… Como faz pra equilibrar tudo isso em seu dia a dia?
Sista Katia: Atualmente eu me considero conectora urbana. Eu tento juntar todas as funções e habilidades que eu tenho em uma única coisa. Então a minha função é criar uma ponte entre pessoas, marcas e meus trabalhos – sejam eles criativos, políticos ou sociais. Eu tento alternar os meus trabalhos – os de grafite, feminismo, moda – durante a semana e acredito que todos eles estão conectados.

Você se mudou para Bahia muito jovem e morou em bairro de periferia. Acredita que isso contribuiu para você se engajar em tantas causas hoje em dia?
Eu nasci em São Paulo, no extremo da zona oeste, e passei a minha infância, adolescência e começo da minha vida adulta na periferia de Salvador e acredito que isso tenha moldado muito o meu caráter. Foram lugares que eu tive contato com projetos sociais e culturais dentro da comunidade e foi por esse caminho que eu tive acesso a tantas discussões políticas – anarquismo, feminismo, veganismo, homofobia, racismo… Eu tive acesso a essas informações na minha vivência do dia a dia na periferia e por isso acho importante o jovem procurar projetos bacanas dentro de sua comunidade para que possamos conquistar novos espaços e se fortalecer politicamente.


Qual o principal fato que a levou a ser femininista?
Foram as práticas da minha própria vida. Eu fui criada pela minha mãe – que foi abandonada pelo meu pai – e por minha irmã mais velha e sempre fui rodeada de mulheres em minha comunidade – a maioria eram mães solteiras. Eu cresci vendo a força e a potência das mulheres fazendo de tudo para criarem os seus filhos e filhas, então pra mim foi muito espontâneo me tornar feminista após conhecer o desdobramento teórico do movimento. Foi fácil pra mim entender que aquilo era algo que eu queria viver na prática e hoje eu estou sempre articulando projetos que fortaleçam os trabalhos geridos e organizados por mulheres.

Além de tudo, o que você acha que precisa ser feito pelos direitos das mulheres no Brasil hoje
É realmente o fortalecimento desses grupos que são autônomos e independentes comandados por mulheres. Uma maior união para que eles possam debater temas como política pública e legislação e assim conseguirmos resolver a parte mais difícil quanto aos direitos das mulheres: colocar em prática o que é discutido entre a gente enquanto coletivo político. Então, o que precisa ser feito é a cobrança pela criação de novas legislações e que os projetos de lei realmente estejam em vigor.

Qual conselho mais valioso que você já recebeu de outra mulher?
Primeiro da minha mãe, que sempre me diz pra eu me manter fiel ao que eu sou e a quem eu sou. Outro conselho valioso vem da minha conselheira espiritual que diz que existe um mar dentro da gente e nós temos que controlar essa tempestade marítima e render sempre boas coisas, como a maré que vai e vem, temos que ter esse equilíbrio. É isso o que eu tento aplicar na minha vida: equilíbrio e não me corromper. Dois conselhos vindos de duas mulheres super importantes pra mim.

E qual a melhor parte de ser mulher hoje?
É ver a mulher que eu tenho me tornado a cada dia, do amadurecimento e autodescoberta. Hoje eu estou em um processo de me entender, de buscar um resgate da minha espiritualidade e de tentar me conectar com essa essência feminina e de poder que a mulher tem enquanto ser mágico. Quando a gente tá bem com a gente, nós conseguimos influenciar as pessoas ao nosso redor e fazer com que outras mulheres também se sintam bem. O lance da autoestima está muito ligado a isso: se sentir bem com o nosso corpo e nossa vida ao ponto de transbordar e contaminar outras pessoas.

Como o grafite entrou na sua vida?
A partir dos anos 2000 eu entrei na cultura hip-hop como expectadora e estava ali conhecendo e aí em 2008 eu comecei a pintar e me interessei por eventos de grafite que aconteciam em Salvador. De tanto vivenciar essa cultura acabei me envolvendo cada vez mais e isso tem me feito conquistar muitas coisas: já viajei pra fora para demonstrar a arte, fiz painéis aqui em Salvador e fui há lugares que nunca imaginei antes graças ao grafite.


Sobre sua relação com o próprio corpo, teve algum momento em que você se sentiu insegura quanto a aparência? Se sim, como fez para superar isso?
Por vir de uma cultura de periferia onde as mulheres usavam as roupas que quiserem independente de seu corpo, eu sempre entendi que eu era livre para escolher usar o que eu bem entendesse. Lógico que eu passei pelo processo de bullying na escola, mas não foi algo que me afetou tão diretamente. Eu não ficava muito tempo apegada a isso. A minha relação com o feminismo fez com que eu entendesse toda essa pressão social quanto aos corpos das mulheres e todas essas cobranças que as mulheres vão passando durante toda a vida, desde a infância até a terceira idade. Hoje em dia eu vivo muito bem com o meu corpo e tento passar isso para outras meninas. Eu não uso muito o termo “aceitação”. Acho que a gente tem que se conhecer e entender o que a gente quer, se quer ser magro, gordo… Acho que as pessoas têm que se sentirem felizes com seus próprios corpos, independente de seu tamanho. A imagem que a televisão, por exemplo, passa do corpo da mulher pra gente é algo que não se assemelha com a maioria das mulheres brasileiras, portanto é uma guerra constante, mas acredito que a gente vá ganhar essa guerra aí.

Qual a maior marca que você quer deixar na sociedade e pelo que você espera que sua geração seja lembrada?
Eu quero ser lembrada por ser uma pessoa que comunicou, que conectou pessoas e acreditou no trabalho em rede. Acredito que quando a gente se junta a uma multidão ninguém segura, portanto quero ser lembrada como uma mulher que acreditava nesse trabalho colaborativo entre pessoas e que as incentivavas a descobrirem o melhor delas mesmas. É o legado que quero deixar.

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