Linn da Quebrada: “Recuso qualquer papel de diva. Sou mais uma voz entre muitas”

De cantora da cena alternativa para o lançamento de seu primeiro álbum, Pajubá, e para a participação em dois filmes, Corpo Elétrico Meu Corpo é Político. 2017 foi um ano decisivo na carreira de Linn da Quebrada, uma das artistas que usa sua arte para falar sobre direitos LGBTs e pelo direito de ser afeminada – ou do jeito que ela bem quiser ser.

Transexual, a cantora vem de uma criação religiosa muito rígida na periferia de São Paulo – ela foi testemunha de Jeová durante grande parte de sua vida. Hoje, ela questiona os padrões de gênero em sua música e acredita ser uma das vozes entre muitas que abrirão as portas para a diversidade e o respeito entre todos e todas.

Em entrevista, ela revela que não quer ser vista como uma diva, mas sim como uma das responsáveis por abrir as portas para tantas outras vítimas do preconceito e da intolerância.

DOMÍNIO POP: O que levou você a querer ser artista?
Linn da Quebrada: Acho que as coisas foram acontecendo… Quando comecei a me descobrir mais, quem eu era e poderia ser, a arte foi o espaço que encontrei para me permitir em todas essas potências. Comecei como atriz, sempre escrevi, depois veio a música, agora também já estou envolvida com cinema, acaba que todas as linguagens artísticas me interessam justamente por me permitirem estar sempre em transformação.

DP: Você acredita que possui uma grande responsabilidade social com sua música?
L: Acredito na representatividade que minhas músicas inspiram, mas recuso qualquer papel de diva ou algo do tipo. Sou mais uma voz entre muitas.

DP: Qual conselho você daria para quem tem o sonho de viver de música?
L: Seguir se desenvolvendo, abrindo a cabeça pra maior quantidade possível de referências. Não ter medo de ousar e realmente criar algo que faça sentido pra você. Produzir o tempo todo.

DP: No Brasil, ao mesmo tempo que vemos artistas transexuais e drag queens se destacarem, sentimos uma onda de retrocesso muito grande na política. Como é viver em um país como esse nos últimos anos?
L: Tem uma coisa de que tudo que é novo, assusta. A gente sente esse retrocesso como resposta ao aumento de pessoas que agora tem ocupado mais espaços e falado mais, sobre temas e em lugares que antes não ocupávamos. É uma resposta conservadora para uma mudança de conceitos, quebra de padrões. Por isso a arte se faz importante: com ela a gente reinventa narrativas e tomamos diversas histórias que foram sempre contadas do mesmo jeito, agora subvertendo isso tudo a partir do nosso ponto de vista. É criação de uma nova linguagem.

DP: Você acredita que sua experiência com o teatro contribuiu para as suas performances no palco como cantora?
L: Com certeza. Minha arte se mistura muito entre as diversas linguagens artísticas com as quais eu me envolvo. Trago muito de uma coisa pra outra. São potências diversas e eu me aproveito e me possibilito com todas elas.

DP: Você acha que o atual momento da visibilidade trans no Brasil se assemelha com o movimento que os gays passaram no passado?
L: Se for do passado de anos e anos atrás eu realmente não saberia comparar esses dois momentos, não vivi isso lá atrás. Mas sei que estamos num momento importante, de virada, estamos nos organizando cada vez mais, nos articulando em diversas esferas: universidade, mercado de trabalho, famílias. Estamos criando novas possibilidades e isso é um caminho sem volta.

DP: O que espera da diversidade no Brasil para os próximos anos? O que acha que falta para alcançarmos o real respeito para todos?
L: Precisamos nos atentar para os altos índices de mortes causadas por homo e transfobia, seguir existindo como resistência. Utilizar a arte e nossos espaços para alcançar locais ainda não conquistados e criar. Criar linguagem, criar redes de fortalecimento, criar novas narrativas. Contar nossa história por meio das nossas vivências e da nossa linguagem.

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